25
- setembro
2018
Posted By : Bianca Bueno
Identificando ideações suicidas em pessoas com transtornos mentais graves

“É só para chamar atenção”, “Quem avisa não se mata” e “Se quisesse se matar já teria se matado” são alguns dos mitos presentes no senso comum a respeito de indivíduos que tem ideações suicidas, e/ou transtornos mentais graves, como a depressão, transtorno de humor bipolar e esquizofrenia.

Mas a realidade é que são assuntos muitos mais densos e complexos, e frases como essas só tem poder de disseminar informações equivocadas e servir como um estímulo a mais para aqueles que estão vulneráveis a essas situações. Nesses casos, a informação sobre o tema e a prevenção são aliadas para desmistificar esses pré julgamentos.

Só no Brasil, o suicídio tira a vida de uma pessoa por hora enquanto 3 tentam se matar. São 32 casos de suicídios consumados por dia no nosso país. No mundo, é a terceira causa de morte em pessoas entre 15 e 44 anos, e no total mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano.

O suicídio caracteriza-se pelo desejo da própria pessoa de por fim a sua vida, a fim de escapar de uma dor emocional ou de um sofrimento insuportável. 

Na visão neurobiológica, o processo emocional e a tomada de decisão são impactados, o que se chama de defeito no circuito pré-frontal-cingulado. 

Ainda, a vulnerabilidade ao comportamento suicida tende a ser mediada por predisposição genética, interação com o ambiente e fatores epigenéticos.

Os fatores que mais influenciam nesse cenário são o estresse ou sofrimento emocional intenso, doenças crônicas e transtornos psiquiátricos, que iremos detalhar mais adiante. 

Antes, precisamos salientar que existem níveis de comportamento suicida:

Ideação suicida

Pensamentos suicidas e/ou verbalizações do desejo de suicidar-se;

Tentativa de suicídio

Ato suicida mas desfecho não é fatal;

Suicídio consumado

Ato suicida, quando o desfecho é o óbito.

E os riscos podem ser classificados em três níveis:

Risco baixo

Caracteriza-se por apresentar alguns pensamentos suicidas, mas não elabora nenhum plano para efetivá-lo.

Risco médio

Pensamentos e presença de um plano elaborado, porém o indivíduo não pensa em cometê-lo de imediato.

Risco alto

Plano definido e os meios para fazê-lo prontamente, dando a impressão de estar se despedindo.

Outra questão presente no senso comum é que é possível identificar quando uma pessoa vai cometer esse ato. Na realidade, não é toda pessoa que se despede de forma explícita, como por exemplo deixando uma carta de despedida.

Isso porque a decisão de tirar a própria vida geralmente é feita no impulso, como se fosse a gota d’água: “Embora muitos pacientes tenham planos bem formulados para o suicídio, a cronometragem definitiva e a decisão final para a ação costumam ser determinadas por impulso”, destaca a psicóloga do CPIP Katiúscia Nunes.

De acordo com o portal Oficina da Psicologia, cerca de 66% das pessoas comunicam a intenção, e 44% de forma clara. Por isso, é importante estar atento aos sinais mais subjetivos de uma despedida, como encerrar contas em bancos e passar bens para o nome de familiares.

Sinais de Alerta na Prevenção ao Suicídio.
Para viabilizar a leitura da imagem por deficientes visuais, clique aqui para ser direcionado ao arquivo em PDF.

Pessoas com ideações suicidas também tem a impulsividade como característica, como se colocar em situações de risco ou mesmo dar indícios através de verbalizações, como “Quero sumir” e “Quero dormir e não acordar mais…”. A impulsividade é uma característica dos impulsos cerebrais e crianças e adolescentes são mais vulneráveis biologicamente à ela.

A psicóloga também indica que não é só o lado emocional que é comprometido, mas o corpo também acaba sendo afetado – e é outro fator que deve atentar-se.

Outro fator chave que caracteriza as ideações de tirar a própria vida se apoiam na falta de habilidade na resolução de problemas: “Às vezes o paciente está tão inundado nesse problema, que não vê saída”, ressalta Katiúscia. Por isso, além do apoio de familiares e amigos, o atendimento psicológico é primordial na busca por essas soluções.

O suicídio e os transtornos mentais graves

A vulnerabilidade de pessoas com transtornos mentais como a esquizofrenia e a bipolaridade são um fator de grande risco para ideações suicidas, se não acompanhadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 90% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais. A depressão é o diagnóstico mais frequente nas vítimas, presente em 36%. Dependência de álcool (23%), esquizofrenia (14%) e transtornos de personalidade (10%) também se enquadram.

Segundo a psicóloga Katiúscia Nunes, os diagnósticos de depressão e de ansiedade vem crescendo muito, por causa das novas formas como estamos nos relacionando. Entre 2005 a 2015, o número de pessoas com depressão cresceu 18,4% no mundo, segundo a OMS. São 322 milhões de pessoas ao todo, e o Brasil é o país que tem o maior índice na América Latina, um total de 11,5 milhões de brasileiros.

E conforme indicamos, pessoas com depressão maior, transtorno de humor bipolar e esquizofrenia são mais suscetíveis a ideações e atos suicidas porque sua condição impacta na funcionalidade dos indivíduos e no sofrimento emocional em que passam.

A psicóloga Katiúscia Nunes (à direita) conduziu uma palestra sobre o suicídio nos transtornos mentais graves em 15 de setembro, na sede do CPIP. Foto: Bianca Bueno / CPIP.

Depressão maior

Identifica-se como humor triste, irritável ou vazio acompanhado de mudanças somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade da pessoa de funcionar.

Mas, é muito importante distinguir tristeza ou luto normais de um transtorno depressivo. Somente um profissional especializado, como um psicólogo ou um psiquiatra, para fazer tal diagnóstico. A depressão caracteriza-se geralmente por uma condição recorrente e, caso a doença se agrave, existe um risco maior para o suicídio – 15 a cada 100 pessoas com depressão tentam suicídio.

Sintomas:

  • Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias
  • Interesse ou prazer marcadamente diminuídos em relação a todas ou quase todas as atividades, quase todos os dias
  • Perda ou ganho de peso significativo
  • Insônia ou sono excessivo quase todos os dias
  • Agitação ou lentidão psicomotora quase todos os dias
  • Fadiga ou perda de energia quase todos os dias
  • Sentir-se sem valor ou com culpa excessiva, quase todos os dias
  • Habilidade reduzida de pensar ou se concentrar, quase todos os dias
  • Pensamentos recorrentes sobre morte, pensamentos suicidas sem um plano, tentativa de suicídio ou plano para cometer suicídio

Embora depressão seja a condição em que existam mais casos de suicídio consumado, Katiúscia salienta que o transtorno de humor bipolar é o mais suscetível às ideações. Porque na depressão bipolar, a tomada de decisão e o controle de impulsos estão comprometidos.

Transtorno de Humor Bipolar

Existem dois tipos de transtorno de humor bipolar:

Tipo 1

Humor deprimido e humor maníaco.

Tipo 2

Humor deprimido e hipomania.

O THB ocorre de forma episódica, envolvendo recaídas. Ele está associado a dificuldades profissionais, abuso de álcool e substâncias, conflitos familiares e nos relacionamentos e desesperança generalizada.

Mencionamos que o risco de ideações suicidas por pessoas com Transtorno de Humor Bipolar é maior porque esses indivíduos tendem a submeter a comportamentos perigosos e de risco, visto que a impulsividade é maior, existem picos de humor e  recaídas. Isso tende a acontecer em episódios maníaco/hipomaníaco, quando a exposição excessiva ao risco podem levar à comportamentos para-suicidas. 15% dos pacientes em episódio depressivo bipolar tentam suicídio.

Uma pessoa com esse transtorno tem 28 vezes mais chances de cometer suicídio. 10 a 15% morrem em função disso, e até 55% já fez ao menos uma tentativa, de acordo com o Programa de Educação Tutorial (PET), da Secretaria de Educação Superior – SESu/MEC.

Esquizofrenia

É uma doença crônica (não tem cura) que afeta cerca de 1% da população mundial. A esquizofrenia ocorre geralmente no fim da adolescência ou no início da vida adulta. Os sintomas são classificados em três categorias:

Sintomas positivos

Coisas que começam a acontecer:

  • Alucinações
  • Delírios

Sintomas negativos

Coisas que param de acontecer:

  • Falta de motivação
  • Isolamento social
  • Ausência de sentimentos
  • Inversão do ciclo do sono
  • Apatia
  • Pobreza do pensamento (da resolução de problemas)

Sintomas cognitivos

Relacionados ao processamento de informações:

  • Déficit de atenção, nas funções executivas, principalmente na cognição social.

Cerca de 5% dos pacientes com esquizofrenia comete suicídio e entre 20 e 40% realizam tentativas de suicídio. O risco é maior na fase inicial da doença, por fatores como a impulsividade, o abuso de drogas, os sintomas positivos e a depressão.

Esses pacientes também têm mais dificuldade de entender que tem chances de se recuperarem dos episódios. Mas, ao passo que têm mais consciência da sua condição, desenvolvem delírios e alucinações que podem levar às tentativas de suicídio, devido ao medo frente à doença. Sendo assim, a consciência sobre a sua condição é um fator de risco e que deve ser acompanhado por um psicólogo ou psiquiatra.

Fatores de proteção ao suicídio no primeiro episódio psicótico.
Para viabilizar a leitura da imagem por deficientes visuais, clique aqui para ser direcionado ao arquivo em PDF.

Tanto para pessoas com esquizofrenia, com transtorno de humor bipolar e depressão, além do acompanhamento médico e da medicação, é essencial uma mudança no estilo de vida com o foco em atividades que gerem prazer para essas pessoas

“Fortalecer a rede de apoio e estimular a participação em grupos sociais é essencial”, finaliza Katiúscia.

Conteúdo: Katiúscia Nunes (CRP 07/22809), psicóloga voluntária

Redação e ilustrações: Bianca Bueno, vice-presidente voluntária e estudante de Jornalismo

Centro de Prevenção e Intervenção nas Psicoses

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